Fomos conhecer os teatros: Kabuki, Bunraku e Takarazuka Revue ✦ Diretamente do Japão

 Assim que cheguei do Japão eu escrevi quase um livro, fiz um diariozão com todas as percepções que tive, para meio que tirar de mim todo aquele monte de informações que consumi, aprendi e vivenciei nas semanas que fiquei por lá.

E eu acabei ficando sem vontade de escrever aqui um pouco mais sobre as experiências que tive, mas hoje acordei com um pouquinho de vontade de escrever, então irei contar as percepções que tive ao assistir os teatros tradicionais do Japão.

Primeiro fomos ao Kabuki em Quioto.

Kabuki é aquele teatro antigo, que tem mais de 400 anos. O modo mais fácil de identificar o Kabuki pra gente que não conhece muito é que nas fotos das peças, geralmente os atores estão com a maquiagem  no rosto bem branca, com detalhes em vermelho, preto e azul.
Roupas bem lindas, e o cenário geralmente é de madeira e os atores estão sempre sérios, ou com expressões que não são sorrisos.
Mas o kabuki é muito mais do que isso, óbvio. Só que eu não vou explicar se não o post vai ficar muito mais extenso.

Foto aleatória que usei como exemplo.
Fonte gotokyo.org

Eu só conhecia por fotos, e achava a coisa mais linda do mundo em questão estética. Então eu imaginava que quando fosse conhecer pessoalmente seria catártico, mas foi bem diferente.

O teatro é impecável, fenomenal, parecia como entrar em um navio antigo.
A arquitetura tinha detalhes por todos os lados, sutis, mas tinha. Desde o corrimão ao teto do teatro principal.
O chão era de um carpete aveludado. O palco principal tinha detalhes em pintura, detalhes na moldura que faz o quadrado do palco, e a cortina do palco era de um tecido muito rico, uma coisa assim, belíssima. 

Os atores, o figurino deles é divino! A maquiagem é divina! A expressão corporal deles, é divina, impecável, esplêndida, e maravilhosa.
Assitimos uma peça que tinha uma criança!E ele ficou caído no chão por sei lá, uns 40 minutos, sem se mexer. Isso que é tonus muscular haha, outro nível de entrega. 
Ah, e eles falam meio cantando, não sei expressar isso por escrito, mas quase todo final de frase tem um iiiIIIiiiHHHhh, OooOOooOhHHh, e pum pum, se ouve um bater nos tambores.

O cenário da peça, foi outra coisa que eu fiquei sem ar. Ele é todo manual e se move a partir da cena como num filme, e você sem percebe. O palco gira!!! É LINDO!

Uma coisa que foi meio ruim é que, como esse teatro é muito disputado, ficamos em um lugar muito distante do palco principal, e era meio difícil captar todos os detalhes estéticos que estava sendo mostrado ali.

Agora a peça em sí, eu confesso que não sei se gostei. Pois estar no Japão, como já mencionei, foi totalmente diferente de só o ver por foto, e não consegui me relacionar com a história apresentada. 
Claro, eu não entendia nada do idioma e certeza que isso ajudou né? haha
Havia uma tradução no fone em inglês, mas pra mim, era mesma coisa que nada.
O próprio expressar dos atores era impecável tecnicamente, mas as histórias não me tocaram.
As histórias eram sobre trabalhores e deuses, realezas e pessoas pobres, e era meio cômico também.
O público ria e eu ficava, o que eu perdi? Não sei se estava gostando.
Sem falar que nunca acabava! Ficamos tipo 4 horas lá haha e na última história, que eu já estava sem esperanças, eu gostei, foi boa. 

Outra coisa que eu não gostei, cadê as mulheres?
Eu senti muita falta das mulheres atuando no Kabuki, mesmo esse teatro sendo criado por uma mulher, elas não podem fazer parte. 
No Kabuki não tem mulheres atrizes, as personagens que aparecem são homens as representando. E essas personagens são tão dramáticas, tão descompassadas (pelo menos as das peças que vi).
Eu me sinto meio mediocre expressando que não achei maravilhoso o Kabuki como acho nas fotos, por de fato não entender, e não gostar da questão de não ter mulheres. 
Mas foi o que foi, valeu a experiência. Quem sabe numa próxima eu não vou assistir com outro pensamento.


Outro teatro que fomos foi o Bunraku, e esse foi maravilhoso, porque são bonecos, e eu amo bonecos!
Esse foi em Osaka, e fomos com um grupo de amigas estrangeiras que conhecemos através do kamishibai, a arte de contar histórias que utilizamos na cia teatral que faço parte.
Foto aleatória que usei como exemplo.

O teatro era mais simples que o de Quioto mas ainda assim era bonito. 
Eu estava muito empolgada em poder conhecer um boneco do Bunraku ao vivo.
Eu os adoro, desde a criação até a manipulação, você vê uma entrega perfeita em cada detalhe.

O palco do teatro era lindo, e nesse ficamos perto, então consegui ver bem a cortina, a preciosidade do tecido, o cenário todo feito manualmente mudando, e os bonecos. Foi lindo!
E a história, era o mesmo esquema, mulher descompassada no romance estilo Romeu e Julieta, mas eu gostei. Era um amor bem drama, combinou com os bonecos.
A unica coisa que faltou foi? Mulheres.
Mas acho que o Bunraku, existe mais a presença de mulheres como no Otome Bunraku, então é melhor.

No fim, eu quero fazer um boneco inspirado nesses. É sensacional.

Agora, o mais impactante e inesperado de todos, o teatro de mulheres de Takarazuka. 
Esse assunto é grande.
Eu achei que seria um babado, pois é um teatro feito 100% com atrizes mulheres. E era tudo o que eu estava querendo, a presença feminina nos palcos.
Então estava feliz. Eu bem alegre, acreditei fielmente no grupo de amigas que indicou e não pesquisei nada sobre esse teatro.
Chegando lá, minha felicidade foi mudando pouco a pouco.
Já nos cartazes se via que a representação dos personagens, estava mais para aqueles animes de romance shoujo de homens pernudos e adocicados, do que para mulheres amazonas e babadeiras que queria.
E eu pensei "ok, tudo bem ser um romace, pode ser". 

Entrando no teatro, era lindo e impecável. Chão de carpete aveludado e com desenhos, lustres de cristais, tudo com a estética bem anime de romance.
Eu comecei a olhar as prévias das cenas da peça que passavam nas telas que estavam no local, e pensei "putz é musical, e é romance com estética shoujo vintage, vai ser paia".
Spoiler: foi. Mas foi maravilhoso haha.
Entrando no local onde ficava o palco, havia uma escada de dois lados, e era quase como imaginar a Rose descendo nela, sabe naquela cena do Titanic? Mas ao invés de ser a Rose, iria vir um homem de terno de príncipe, todo pernudo, com uma rosa na boca dizendo que você é a princesa dele, e que vão viver juntos um lindo romance.
Consegue imaginar essa cena?
É tipo essa estética aqui.

Uma leve foto das atrizes e do corrimão da escada.

Lá no Japão, me parece que a representenção de homem dos sonhos para o público feminino, é esse homem doce e afeminado, nesse estilo aqui. 
Eu gosto também, mas eu comecei a ficar confusa com uma questão.
As moças que representavam esses homens, pra mim, eram nitidamente mulheres. Moças maquiadas e lindas, com rosto de moças, e vestimenta masculina, representando um homem.
 
Uma representação que pra mim talvez entraria num universo mais queer, pois reforçando, eram rostos de moças nitidamente, com vestimenta masculina. Algo meio não binário.
Então eu estou achando bonito e tendo atração para uma pessoa, meio mulher, meio homem, e é pra isso que viemos aqui. Certo? 
Um exemplo da representação. 

Eu as via como mulheres.
Mas para o público japonês eu sinto que talvez não. Parecia que o público viam as atrizes como homens, andavam com cartazes e revistas com as fotos desses personagens e era tipo "ai que lindo o homem dos meus sonhos", ou como as fãs, que são muito fãs mesmo dos idols de kpop. E eu fiquei meio, é isso mesmo?

Olha como o formato do pensamento se choca. Eu via mulheres, mulheres lindas por sinal, se eu me atraísse por elas, eu iria me atrair mais por uma mulher. Já o público, parecia ver como um homem.
 
Mas eu não tenho certeza desse pensamento que tive. 
Pois esse teatro pode e sim estar dentro do espaço da comunidade queer, mas meio velado, talvez.
Foi pouco tempo pra eu conseguir entender.

Começou o espetáculo, e eu não estava preparada para o que viria.
O que me decepcionou foi que as mulheres representava homens, ok, mas esses homens eram ricos, lindos, românticos e salvadores.
Sabe? O clássico, o homem perfeito que se apaixona pela menina comum, que só está vivendo, e ele a ama, e todos a amam, e disputam. Bem trama adolescente.

Por um momento eu achei que entendi qual era o rolê, o público que majoritariamente é feminino gosta da representação desse homem dos sonhos que as atrizes entregam, e como no Japão a beleza masculina tem muito do ser mais "feminino", era o combo de bom, bonito e legal para o público.

No quesito história da peça, eu fiquei triste porque eram mulheres representando homens, mas ainda assim quem era o principal e o motivo daquela história existir, eram os homens. 
Então do que adiantou ser mulheres? Se a representação da mulher, ainda foi colocada nesse lugar de ser salva pelo homem rico?

Eu estou conseguindo expressar meu pensamento? Eu não sei.

Sem contar que era musical, e durou umas 5 horas. Eu não estava aguentando.
O espetáculo era imenso, elas eram lindas, elas dançavam super bem, presença de palco mil por cento.
Mas elas não paravam.
Era música, era brilho, era dança, era look, era luz, era fogo de artifício.
Teve uma hora, que eu juro, eu achei que elas iriam virar aquele meme do Jordann, que ele vira isso aqui:
Por que a roupa era exatamente nessa mesma pegada!
Foi assim: O casal de personagens principais finalmente ficaram juntos e apareceram em cena com um terno bonito e um vestido de festa.
Eles saíram do palco e voltaram com uma roupa de príncipe e princesa com brilho (um vestido lindo por sinal); saíram de novo e voltaram com uma roupa de realeza com mais brilho e capa; saíram de novo e voltaram com uma roupa maior de realeza mais capa e mais brilho; saíram de novo e voltaram com outra de roupa de realeza e um COSTEIRO de plumas, que depois virou costeiro de penas colorido.
Eu pensei eles vão transcender igual o Jordann!!!! 
~Ooh, I want the time of my life~ 
(Confesso, eu não pensei isso porque nessa época o meme do Jordan ainda não tinha saído, e quando saiu eu fiquei muito feliz que alguém conseguiu traduzir o que eu senti assistindo essa peça, pois eu pensei que os personagens principais iriam vir em formato de luz brilhando na última cena haha)

E era tanta coisa, tanta coisa bonita, só que muito!
Teve uma cena das atrizes dançando igual as dançarinas de can can, com as pernas iguais estéticamente e no mesmo ritmo, eu me senti igual ao pica pau quando ele está "dorgado", toda confusa.
Eu não consigo mais encontrar palavras pra expressar o que foi isso.

Minha irmã saiu com dor de cabeça.

Mas foi incrível hahaha que experiência minha gente, que experiência.
Eu não entendi nada dos motivos (a história deu para entender), mas foi maravilhoso hahaha.

Dois exemplos para você entender o que estou falando.

Depois de tanto reclamar por que foi maravilhoso?
Porque é disrupitivo, e porque são mulheres fazendo arte e fazendo muito sucesso, e porque a produção é maravilhosa e elas também são maravilhosas.
Fazer aquela roupa da Jordan de ia no manual, é pra poucos.
Então eu vou deitar pra elas.
E eu confesso que peguei uma certa afeição por elas hahaha.
Eu vi algumas entrevistas com as atrizes falando e fiquei meio ... que mulheres lindas hahaha.
Quem mais poderia interpretar um homem perfeito se não uma mulher né?
Vi essa frase numa reportagem sobre elas e acho que é isso haha.
Eu dormindo.

E esse teatro existe a mais de 100 anos e as fotos antigas são lindas!

Chorus line dancers from the 1930 show Parisette.



Bom eu cansei de escrever, e vou terminar sem um final de conclusão sobre tudo isso que eu nem sei mais.
Foi tudo muito novo e acho que na verdade não tenho repertório para dissertar sobre tudo, só minhas vagas percepções de primeira impressão, de ver por fora e por dentro o que foi isso.

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